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Profª Regina Brito analisa aspectos da reforma ortográfica

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A docente do programa de pós-graduação em Letras do Mackenzie, Profª Drª Regina Helena Pires de Brito, concedeu uma entrevista ao site Conexão Professor, na qual analisa os principais aspectos da reforma ortográfica.

Confira abaixo a íntegra da entrevista

O novo acordo ortográfico da língua portuguesa entre em vigor no próximo dia 1º de janeiro. Para falar sobre as mudanças, os seus efeitos práticos, as críticas feitas ao acordo e o impacto no mercado editorial, o Portal Conexão Professor entrevistou a Regina Helena Pires de Brito, Doutora e Mestre em Lingüística pela USP. Regina é professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e membro do Conselho Diretivo do Instituto Nacional de Lingüística de Timor-Leste.

Conexão Professor (CP): A senhora é a favor dessa reforma ortográfica? Ela realmente simplifica a ortografia, padroniza a língua portuguesa?

Regina Helena Pires de Brito: Na verdade, – e isso talvez ainda gere alguma confusão – trata-se de um acordo de unificação ortográfica da Língua Portuguesa e não de uma “reforma” da “ortografia” ou mesmo da “Língua”. Muitos se posicionam contra o Acordo pensando-o como uma Reforma. Nada disso. O Acordo visa apenas a sistematizar, a convencionar a representação gráfica da língua, mas todos os falantes, de qualquer parte do espaço lusófono, continuarão a ter sua identidade lingüística: permanecem os sotaques, as entonações, o vocabulário próprio… Fazer uma “Reforma” Ortográfica significaria considerar todas essas mudanças – já imaginou? Neste sentido, sou, sim, favorável ao Acordo de Unificação Ortográfica e continuarei a dizer “meninu” e a grafar “menino”, como uma amiga baiana continuará a dizer “méninu” e a escrever “menino” e meu pai, português, dirá “m’ninu” e escreverá “menino”. O Acordo simplifica muitos aspectos, uma vez que altera o que diferia muito nas grafias dos países de lingua oficial portuguesa e também naquilo que não afeta demais a relação entre os falantes.

Conexão Professor (CP): Entre as mudanças do acordo, existe alguma que a senhora considere mais impactante? Alguma delas é realmente imprescindível?

Regina Helena Pires de Brito: Creio que o uso (ou não) do hífen (que sempre foi meio “chatinho”) demandará mais atenção. Por exemplo, o hífen será mantido nas palavras compostas como “arco-íris”, mas será eliminado em compostos nos quais “se perdeu a noção de composição” como em “paraquedas” (hoje: pára-quedas). Depois, há uma série de indicações de uso, como: se o prefixo termina por vogal igual à vogal inicial do segundo elemento, existe hífen: microondas passa a ser grafado: micro-ondas etc.

Conexão Professor (CP): Por que Portugal está se opondo tanto a assinar a reforma?

Regina Helena Pires de Brito: Acredito que o ponto principal dos opositores do Acordo esteja no fato de terem “acusado” o Acordo de “abrasileirar” demais a língua portuguesa – o que, em termos históricos, evocaria uma certa inversão de papéis, uma espécie de “colonização” na direção contrária. Dizem, por exemplo, que é um absurdo que o Acordo altere apenas 0,5% das palavras da variedade do Brasil e 1,5% da variedade européia – quem diz européia, diz Portugal e os demais países que adotam a norma européia da língua portuguesa como padrão: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Embora nesses seis outros espaços exista, naturalmente, uma variedade de português própria (português moçambicano, português angolano e assim por diante), a língua de ensino, dos documentos oficiais, da administração segue o padrão europeu. Isso acaba sendo um problema. Vivi isso quando desenvolvemos um projeto de cooperação bilateral com Timor-Leste, visando a sensibilização dos jovens timorenses para a comunicação em lingua portuguesa utilizando a música brasileira. Nosso trabalho, desenvolvido em parceria com a Universidade Nacional de Timor-Leste e com o Instituto Nacional de Lingüística, vinculou-se ao “sistema de educação não formal”, justamente por conta – não do sotaque, não do vocabulário – mas por causa, basicamente, das diferenças ortográficas. Aqui está, para mim, um ponto chave: o Acordo mostrará que não há “senhor” da língua, levando ao reconhecimento de que, simbolicamente, a legitimidade da língua portuguesa está em todos os indivíduos que a falam.

Conexão Professor (CP): Quanto tempo uma reforma como essa leva para ser assimilada?

Regina Helena Pires de Brito: Em matéria de língua, não há como mensurar, mas as alterações serão assimiladas aos poucos, pelo contato com a língua escrita.

Conexão Professor (CP): A senhora acha que essa reforma terá realmente efeitos práticos no dia-a-dia da população?

Regina Helena Pires de Brito: Como disse, aos poucos, a população vai se habituando com as “novidades” escritas e deve acabar assimilando. A princípio, muita coisa aparecerá escrita de variadas formas – o que não é muito diferente do que se vê hoje…

Conexão Professor (CP): O mercado editorial brasileiro será beneficiado com essa unificação?

Regina Helena Pires de Brito: As diferenças ortográficas não impedem que nossos livros – especialmente a nossa literatura – circulem pelos outros países de língua oficial portuguesa, mas a unificação ortográfica pode facilitar a disseminação nos outros países. Não sou conhecedora do ramo editorial, mas imagino que a questão – penso especialmente nos textos literários e técnicos – deva passar por outros entraves, ligados a direitos de publicação e distribuição.

Conexão Professor (CP): No caso de crianças que já iniciaram o processo de alfabetização, essa reforma pode se tornar um problema?

Regina Helena Pires de Brito: Não vejo exatamente como um “problema”. O contato com a língua escrita vai, paulatinamente, possibilitar a fixação da nova grafia. O importante é preparar os professores e não querer culpar o Acordo pelas deficiências do ensino do Português na escola: não são os acentos e os hífens os vilões da história. Nunca foram. O problema mesmo, infelizmente, está na formação dos professores, nas condições dos professores e das nossas crianças, no ensino, na aprendizagem e não na nossa língua…

Conexão Professor (CP): Não existe um acordo ortográfico semelhante entre países que falam a língua inglesa ou espanhola. Por que o português precisaria de algo parecido?

Regina Helena Pires de Brito: A língua espanhola ou mesmo a lingua francesa são reguladas pelas Academias de Letras e não pelos governos… Isso altera bem o enfoque da questão. Segundo o Instituto Cervantes, o espanhol não tem nenhum tipo de acordo porque no plano ortográfico os vários países sempre coincidiram. No caso do inglês, o British Council apenas refere um “International Legal Agreement” para uniformizar a terminologia jurídica dos países que adotam o inglês como língua. O Português tem duas grafias oficiais (a portuguesa e a brasileira). Então, no nosso caso, o Acordo será importante, porque, em termos de difusão internacional, essa duplicidade traz muitas dificuldades e é antieconômica. Assim, os organismos internacionais que adotam o português como lingua de trabalho precisam publicar documentos nas duas grafias; no caso das certificações de proficiência de língua portuguesa, em qual das variedades deve ser feita? Ou, como relatei, os nossos materiais didáticos não podem ser utilizados oficialmente nos países que adotam uma grafia diferente da nossa – neste sentido, é bom lembrar que a unificação ortográfica pode legitimar essa “diversidade”, uma vez que aceita, em muitos casos, as duas grafias.

A entrevista foi publicada originalmente no site: www.conexaoprofessor.rj.gov.br

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do Hexag.

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